Oração a São Dalton da Curitiba impossível, invisível, risível, ou qualquer coisa que valha...
Curitiba
Ó maldito vaso de água podre
figo fervilhante de bichos
ó cedro retorcido de agulhas
hiena comedora de testículos quebrados
(Dalton Trevisan)
São Dalton da Curitiba impossível
Ajuda-me a ignorar os vampiros daltônicos
A atravessar incólume a chuva de cólera
Senta ao meu lado em um coletivo e unge minha testa
Para que eu ouça apenas os belos da cidade insone:
Os Eleotérios das livrarias
As polaquinhas do Passeio
Os pedintes da XV
Aponta o altar onde te benzes contra os anjos do rancor
A lua que escalas nas noites para tornar invisível teu semblante
O elixir que tomas para ignorar quem te usa para 'brilhar' um instante
Guia meus passos até o labirinto da expressão humana
Me ensina a lavar as sandálias na fonte da compreensão
São Dalton Trevisan das causas sempre ganhas
Dos 77 ais que guardas entre as costelas
Como um antídoto para as facadas dos desafetos
São Dalton amigo das violetas nas sacadas
Unta-me apenas de poesia e me esconda do resto
Eu, quase invisível na cidade dos invisíveis
Nesta Curitiba impossível
De ódios tão pequenos como os enredos escritos para nos ferir
O sol dos contistas de todos os séculos se levante
Com a tua força e com aquilo que posso te dar
Um chá sem horário e sem tédio
Pleno de rimas e mariposas
E esta vibrante camélia entre os meus dedos
Deixo aos teus pés , São Dalton da Curitiba impossível
Por todos os séculos dos séculos... Amém!
Bárbara Lia
Réquiem
Volume 19 da coleção 21 gramas
Capa - Solitude (Foto do poeta Isaias de Faria - MG)
http://isaiasfaria.blogspot.com.br/
Dans L’air
Tínhamos a mesma idade
Quando vimos o mar
Este mistério de impaciência
Tínhamos a mesma impaciência
– Rimbaud e eu –
Por isto
Pisamos telhados
Ao invés do chão
Por isto
Machucamos nossos amores
Com nossas próprias mãos
Por isto
As velas acabam na madrugada
Antes que o poema acabe
- Por isto, tão pouca a vida para tanta voracidade.
O rasurado azul de Paris
Bárbara Lia
volume 15 da Coleção 21 gramas
Hoje à noite eu o amo pelo modo adorável como ele me deu a Terra
Anaïs Nin
E como explicar o desejo?
A flor que se abre – à revelia
Sôfrega, desvairada, atônita
Tudo se reparte
Em crisálidas mirabolantes
Parindo estrelas adormecidas
Aos borbotões
Até Secar o Sol
Bárbara Lia
ed. 21 gramas (volume 3)
Capa - Toulouse-Lautrec
Foto Kátia Negrisoli
Detalhe da capa do livro e fragmento do poema Sakountala - Para Camille, com uma flor de pedra. Volume 17 da coleção 21 gramas. Apresentação de Kátia Torres Negrisoli. Capa de Brenda Maria Santos -
http://oscaprichosdemaria.blogspot.com.br/
21 Gramas é o meu inventário poético, coleção de poesia publicada de forma artesanal para registrar as poesias que não estão - ainda - em livros impressos de forma tradicional. Ao final da minha seleção, que iniciou em 2010, a coleção 21 gramas engendroou 21 livros com mais ou menos 21 páginas cada livro. Por encontrar interesse entre os leitores de poesia que acompanham minha caminhada, imprimi mais de 300 pequenos livros, conforme ia formatando a coleção e dialogando com poetas, leitores, companheiros deste caminho poético.
A seleção final de poesias e a definição da capa que vai ser parte do inventário poético chega ao final. Nesta última etapa a escolha do fio para unir as páginas recaiu sobre o branco tornando a coleção inteira um conjunto de capas brancas, costura branca e miolo com papel reciclado. As capas receberam algumas telas e desenhos de domínio público, de autores como Degas, Monet, Toulouse-Lautrec, uma partitura de Bach, contrapondo com várias ilustrações de poetas e amigos que integraram com carinho a coleção de poesia, como os poetas Isaias de Faria e Felipe Stefani, a artista plástica Ane Fiuza, a designer Brenda Santos e o pintor carioca
Rogério Teruz. Uma fotografia de Mel Bandeira, uma imagem da NASA. O mais instigante e poético é a poesia que é confeccionar seus próprios livros de Poesia. Em uma Matéria na Folha de São Paulo, Ferreira Gullar fala desta - mania - dos poetas e esta tradição que nada detém - tecerem seus próprios livros. Ao final, esta é a minha coleção 21 Gramas. Cada livro um tema, uma história, o meu inventário poético:
Coleção 21 Gramas - Bárbara Lia
1. À sombra de um rio
2. Adamare
3. Até secar o sol
4. Barco de Lia no rio de Cora
5. Brincando nos campos do amor
6. Cantata Fugace
7. Chá para as borboletas
8. Cigarras no apocalipse
9. Deus no orvalho
10. Entre ogivas e axés
11. Nebulosas no quintal
12. NooN
13. Nyx Nua
14. O Fim do Futuro
15. O rasurado azul de Paris
16. O sorriso de Leonardo (2ª edição)
17. Para Camille, com uma flor de pedra
18. Percepções
19. Réquiem
20. Um rio de jasmins nas veias
21. Uma lua em teu ventre