Thursday, July 28, 2005

ÁGUA PALAVRA


Manhã de sal lhe seca a língua.
Janela aberta, vento lhe abraça.
Salmoura até à alma.
Sede absurda de água, água,


água... Língua se torna água.
Anjo na janela já não fala.
Perde olhar no areal de fogo
língua líquida se faz


abismo de sons.
A palavra cala, tudo cala
Só o vento canta, canta e embala.


Retorna não mais humana
língua de carne - mas, luz que traduz
da essência do anjo as palavras.
(BÁRBARA LIA)

Sunday, July 24, 2005

NA VARANDA DE FLORBELA

*
Aqui cantaste nua.
Aqui bebeste a planicie, a lua,
e ao vento deste os olhos a beber.
Aqui abandonaste as mãos
a tudo o que não chega a acontecer.

Aqui vieram bailar as estações
e com elas tu bailaste.
Aqui mordeste os seios por abrir,
fechaste o corpo à sede das searas
e no lume de ti própria te queimaste.

(Eugénio de Andrade)
Portugal.


Saturday, July 23, 2005






















REBELIÃO NA ZONA FANTASMA - CD DO ADEMIR ASSUNÇÃO.
COM PARTICIPAÇÕES DE ZECA BALEIRO & EDVALDO SANTANA.

Rebelião na Zona Fantasma é essencialmente um disco de poesia. Mas não somente poesia falada, com leitura convencional, linear e fundo musical. É mais que isso. Um disco onde se procura a música da linguagem, com entonações, ritmos, divisões e prosódias inusitadas, dentro de surpreendentes estruturas de blues, baladas, jazz e rock'n roll.
Depois de cinco livros lançados, o poeta Ademir Assunção vem a público com esta inovadora experiência, que tem a participação fundamental dos músicos Madan (violão e vozes cantadas), Ricardo Garcia (percussão), Luiz Waack (guitarra, violão e sampler), Mintcho Garramone (baixo), Eduardo Batistella (bateria), Daniel Szafran (teclado e piano) e Celmo Reis (violino).
Para esquecer os conceitos e utilizar palavras mais simples, podemos dizer apenas: presta atenção que isso aí é poesia, blues e rock’n roll.
(Texto acima recebido do Pinduca).
*

Tuesday, July 19, 2005

DA HERANÇA

- Bárbara Lia -


Meu pai dizia que ela era forte,
e era fiel ao seu amor.
Bárbara Bela – de Alvarenga.
A conjurada. A louca.


Sou guerreira – este é o nome.
Estigma na alma,
a vida uma batalha,
amores degredados.


Nome marcando
passos, destino, travessia.
Quem dera ser Beatriz.


A mais bela canção do Chico,
A musa de Dante.
Uma mulher feliz!

Sunday, July 17, 2005

SEGUNDA MORTE

Bárbara Lia

O pelotão avança, cascata de passos
Em adágio, botas resvalando relva.


Coração acelera. O homem calvo cobre
Meus olhos. Aguardo o fim.


Lembro negro olhar em chamas, encanto.
Fatal certeza... Morrer? Já morri por ti.

*

Em janeiro vivi uma emoção muito bela quando estive na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre. Agora o Sidnei Schneider, poeta de Porto Alegre, me conta que vai ler três poemas meus e três dele no Recital da Casa de Cultura Mário Quintana neste domingo. O poema acima, Transparência e Concha Rossa. Estas horas de cálida ternura é que ponteiam a minha estrada, a rota, a travessia. Meus poemas lidos no sul, ter os filhos mais tempo em casa por causa das férias. A felicidade é feita de milionésimos de segundos. Mano Melo terminou o poema - A moreninha- que escreveu para mim com uma frase tal qual esta...
"...a eternidade é feita de milionésimos de segundos"
Esta feliz eternidade destes milionésimos de segundos, que são a notícia do recital, os beijos a mais que tenho nas manhãs, já que o Thomas está de férias e a Tahiana acorda com cara de gatinha dengosa, e na noite eu tenho a companhia da Paula, que ri muito vendo tv e eu fico aqui do quarto ouvindo a gargalhada dela e pensando, em milionésimos de segundos que tenho desta eterna felicidade. De ser poeta - mãe e amiga de pessoas eternamente belas...

Friday, July 15, 2005


BOM DIA NOITE

Há alguns anos fui em uma tarde de domingo ao Cine Luz. Gratas surpresas e emoções vividas ali, e uma delas foi Juliette Binoche no filme – A Liberdade é Azul, de Kyalowski. Eu sai do cinema sob o impacto da arte de Juliette e ela passou a ser admirada por mim, bem antes do Oscar. Ontem eu sofri o mesmo impacto, no mesmo cine, diante de Maya Sansa. A atriz italiana que interpreta a guerrilheira Chiara do filme “ Bom dia noite”. Esquecendo o julgamento histórico e o drama do sequestro de Aldo Moro, o filme revela a arte de Maya, e a bela trama dirigida por Marco Bellocchio, choca. A semelhança do ator Roberto Herlitzka com Aldo Moro e a condução da história conseguem transformar a maratona densa de seqüestradores confinados, em um filme que merece ser visto. Acreditando ser recurso de cinema terem colocado uma tão bela atriz para interpretar Chiara, fui buscar os fatos, os mesmos que prendiam minha atenção diante do noticiário quando ocorreu o seqüestro de Aldo Moro. A militante mulher que era integrante da Brigada Vermelha – Ana Laura Braghetti – é o retrato de Maya Sansa. Foi ela que forneceu, na história real, a própria casa – via Montalcini 8 – para a prisão de Aldo Moro. O filme conta os 55 dias de confinamento de Aldo Moro, pela visão de Chiara (Anna Laura), baseado em depoimentos de Anna Laura, que conseguiu liberdade condicional em 2.002. Uma pequena burguesa, uma funcionária que saia ao trabalho, enquanto seus companheiros ficavam em casa com presidente da Democracia Cristã da Itália. Assassinado pelo grupo ao final de uma história que incluiu o Papa Paulo VI se propondo a se por de joelhos diante dos seqüestradores. Nenhuma reivindicação do grupo foi atendida, Aldo Moro - executado. Anna Laura Braghetti, uma mulher nascida em Roma, que tem apenas dois anos a mais que esta poeta, acreditava na luta do movimento que se envolveu – Brigate Rosse – Brigada Vermelha, que por um erro de tradução aparecia na legenda ora como BV, ora como BR. Como demonstra o filme, o livro que foi escrito por ela narra exatamente o que as telas tentaram mostrar - a passagem para o arrependimento diante da morte de Aldo Moro - Para mim revelou uma interpretação que relembrou Juliette Binoche, um olhar onde se pode ler inúmeras mensagens. Interpretar, sem dizer.

Bom Dia Noite, o título do filme faz referência a poema homônimo de Emily Dickinson :

Bom dia noite/Estou voltando a casa/O dia se cansou de mim/Como poderia eu dele.

- o livro - Il Prigioniero - escrito por Anna Laura Braghetti e a jornalista Paola Tavella, deu origem ao filme.


SEREIA ALADA

A gralha azul lava as asas no tanque de açucenas. O marajá de Yankipur espia os gestos da ave. Possui reinos, mas não possui o vôo. Só o ouro pesa nas mãos - ópio que engana. Admira as asas abertas azuis e pensa:
- Quero teu vôo!
A sereia na pedra sonha serem os negros cabelos - asas, e reclama:
- Não quero a úmida pedra e este canto que enfeitiça os habitantes das naus. Não quero raptá-los à lua, enamorados. - Quero asas!
Entre o marajá e a sereia, a gralha azul voeja e batiza o sonho de um deles com espumas de prata. O marajá olha insolente, mas, volta as costas ao milagre, preso ao peso do ouro, reclama:
- Quero asas!
Sonha raptar a sereia, adornar seu tanque de vidro e águas perfumadas. A sereia sorri e voa para longe das mãos ferinas, feliz por ter, no ritual da tarde, recebido asas azuis de vidro.

Um conto poético de Bárbara Lia.
Ilustrado por Ane Fiuza

Thursday, July 14, 2005


A janela se fecha no coração
Magnético
Em que olhos puxam vitrais.


Olhos se fecham
Viúvas se matam
Caixas de música


Não tocam mais música
Apenas se fecham.


(Thomas Gabriel)

Thomas Gabriel - meu filho de 16 anos - escreveu este poema em
2.002.
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Wednesday, July 13, 2005

A primeira vez que Sylvia Plath
Se aproximou de mim
Trazia nas mãos um poema sem palavras
Com um beijo morto na boca
Ela beijou meus dentes
E se deitou comigo
Num beco sem saída.



(Álvaro Alves de Farias)
*
Poeta paulista que me seduziu para sempre,
depois que li "O sermão do viaduto" e "lindas
mulheres mortas".

Friday, July 08, 2005

CACTO & JASMIM

(Bárbara Lia)

Busco equilíbrio entre o cacto e o jasmim.

Silêncio abissal de desertos.

Ruidosa rua de pedras.

Sou sempre: solidão ou multidão.

A voz cristal de Deus me apavora.

Meu coração uma gruta.

Com espinhos de cactos.

Com perfumes de jasmins.

No varal da alma

o aviso:

Aqui jaz a perfumada ilusão.

*

Há algumas semanas recebi um e-mail de Leila Míccolis dizendo
que eu estava entrando na lista dos mais de oito mil poetas que
tem lá no Blocos Online... ela solicitou poemas e estão lá no blocos
online, no endereço abaixo.


http://www.blocosonline.com.br/literatura/autor_poesia.php?id_autor=2823&flag=nacional

Thursday, July 07, 2005

GUIZOS AO SOL

- Bárbara Lia.



Escaravelho solar. Tua presença
ilumina – bonsais sorriem.
Manhãs desgarradas seguem
antigas rotas.


Coiote silencioso
sussurrando segredos aos grãos de areia.
No futuro todo o Universo saberá
das belezas – Guizos ao sol.


Sonho ser Castor; Tu Pollux.
Constelação eterna num fictício céu
dos amantes untados de fogo.


Sonho ser a musa de um poeta
suave, esquivo, terno. Sonho
– Astros se curvando ao que nasceu em nós.